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Como confiar na Justiça, neste país?

22.04.18

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Um nada surpreendente episódio de claro abuso policial, em 2013, que tem como vítimas um grupo de jovens e rapazes suburbanos, atingidos com tiros de balas de borracha pelas costas, ao fugir da Polícia sem a ter agredido, e que é levado a Tribunal. Resultado final? Polícia absolvida.
Um ano antes, um outro episódio, também num subúrbio de Lisboa, que termina com um polícia a matar um rapaz de 14 anos, com um tiro à queima-roupa, rapaz esse, relativamente ao qual não há provas convincentes de que estivesse armado. Resultado final? Polícia absolvida.
(E, isto é apenas o com que, por mero acaso, me deparei de uma ou outra vez que liguei a televisão. Pois, há já uns bons anos que desisti de ver intencionalmente telejornais, para não estar sempre a apanhar com mentiras, propaganda política e notícias sobre futebol.)
Há 16 anos, aquando de uma notícia, também nada surpreendente, da absolvição da polícia de choque espanhola, depois de uma carga policial gratuita (da qual também eu tive de andar a fugir) aquando de uma concentração em Barcelona, escrevi e mantenho:

 

O sistema de "justiça" não serve para fazer justiça. Serve para reprimir os rebeldes e desobedientes a esta ordem e para manter o actual estado da sociedade em funcionamento. É mais um dos vários orgãos de repressão do Estado.
É aliás um contrasenso. Como pode haver justiça dentro de um sistema que em si mesmo, logo à partida, é injusto?

 

E, esta semana, deparo-me com a seguinte entrevista feita a alguém que também é "anti-sistema".

 

Garcia Pereira. “A Justiça é um instrumento de abate de cidadãos incómodos”

 

Sempre foi assim, em qualquer um dos regimes anteriores que tivemos (fossem eles Monarquia, Primeira República ou Ditadura Fascista). E continua este sistema de "Justiça" a funcionar com este mesmo propósito. Só mesmo quem não vê nada de mal na sociedade em que vive, e nunca tentou mudar as coisas para melhor, é que não se apercebe de uma coisa destas.
Se reprime a Justiça criminosos que também têm como vítimas os cidadãos comuns, é porque esses criminosos representam também um perigo para as elites que beneficiam deste sistema. (E, tudo o resto são, obviamente, operações de cosmética, para convencer o comum cidadão de que a Justiça também o protege - ou, por ventura, acções justas, mas muito limitadas por circunstâncias várias, da parte de quem, honesta e ingenuamente, decide fazer parte deste sistema judicial com o intuito de tentar praticar Justiça.)
Querem uma prova disso?
Voltando ao caso das polícias (pertencentes a este mesmo sistema judicial) vejam o (também esta semana reportado) caso do SEF, que atribui apenas 3 agentes à unidade de combate ao tráfico de seres humanos em Portugal (tráfico esse, que obviamente floresce no nosso país, em consequência de tal notória falta de vontade em combatê-lo).
Desde quando é que é este um crime que afecta as elites? As pessoas que são vítimas do tráfico de seres humanos, são pessoas que estão no fundo da hierarquia social - e, como tal, por estarem em situações de pobreza extrema, arriscam a sua vida de maneira que arriscam ou, até mesmo, sujeitam-se a quase tudo.
Ora, que interesse é que tem, quem controla este sistema, em combater tal fenómeno?
E, já agora, note-se também...
Para combater um tipo de crime hediondo como este, inadmissível num suposto país desenvolvido do século XXI, há falta de meios. Mas, para vigiar tudo o que são activistas que queiram mudar o actual estado das coisas, para isso, já não faltam meios.

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colocado por Fernando Negro às 18:13